...Debaixo da cama, com a calcinha dela nas mãos, repetia: "meu amor volte para mim..."
Zimba cresceu ouvindo insultos dos amigos adolescentes que, impiedosamente faziam brincadeiras sobre o fato de sua mãe ser apontada nas ruas como “corneteira”, ou seja, uma mulher que dá corno, que trai o marido. E todas as vezes em que alguém pronunciava a expressão “filho da puta” todos olhavam para Zimba e gargalhavam, causando-lhe grande desconforto e constrangimento.
Aos 18 anos, Zimba começou a namorar, e
estava extasiado com o fato de, finalmente, poder estar entrando para o rol dos
que já haviam beijado uma garota. Agora sim, ele poderia se sentir como um
verdadeiro componente do grupo social dos garotos normais. Seria respeitado. Agora
Zimba fazia questão de desfilar pela cidade de mãos dadas com a namorada e, com
muito orgulho, a apresentava a todos: “esta é a minha namorada!” Até que passou
a ser apontado como o que estaria oferecendo a namorada aos concorrentes.
Não demorou muito, e Zimba passou a ser
apontado como corno. Alguns amigos tentaram lhe alertar sobre os comentários
recorrentes, mas Zimba, peculiarmente, se recusava a acreditar e os atribuía à inveja e ao
preconceito. A namorada se dizia inocente e chorava todas as vezes em que ele
tocava nesse assunto. Zimba, após inúmeros alertas, começou a se sentir incomodado
com o falatório e passou a seguir os passos da namorada. Já no segundo dia de
investigações, Zimba a viu se beijando com um outro rapaz num local escuro e
deserto. Ele ficou encolerizado, “cego”, e pensou em cometer uma violência, mas
aos poucos o discernimento voltou a nortear seus pensamentos e Zimba entendeu
que se ninguém viu, ele não precisaria sofrer com o trauma da separação. Era
impensável voltar a ser aquele menino que não “pegava” ninguém e era o alvo das
brincadeiras maldosas dos amigos. No terceiro dia de vigilância à namorada,
Zimba vacilou e se deixou ver pelo casal de traidores. Agora a namorada não
poderia negar. Mas a sua maior preocupação era que já não poderia mais se
enganar. Estaria arruinado...
Zimba não se
conformava em estar, novamente sozinho... Sentia todas as dores da perda da
primeira namorada, nos âmbitos físico, psíquico, moral e da autoestima. Parecia
que até o respirar doía, pois era acometido por uma dor no centro da alma que
se confundia com dor de estômago. Zimba esta desesperado e não tinha ânimo para
viver. Passou a faltar às aulas e ao trabalho, além de ficar intolerante com os
pais. Não tinha fome, não comia regularmente, chegando a perder peso e o apelido de
criança: “Gordinho”.
Numa das muitas noites sem dormir, acometido de
insônia por causa da angústia e do vazio originados pelo amor que se foi, Zimba estava ouvindo
um programa de rádio, quando ouviu uma propaganda de um Pai-de-Santo chamado
Nego-Véio, o qual prometia resolver todos e quaisquer problemas em todos os
infinitos âmbitos da vida humana. Zimba, que já estava entrando no início do
túnel da conformação, é, novamente, tomado por uma sensação-sem-nome que lhe
corrói a alma. Mas ao mesmo tempo se nutriu de uma nova esperança de ter de
volta a mal amada. Naquela mesma noite, através de amigos, tomou conhecimento
do telefone do umbandista, entrou em contato e agendou uma consulta para o dia
seguinte. Nas últimas horas da madrugada ele até conseguiu pegar no sono. Sonhou com a amada, tamanha era sua ansiedade...
No “terreiro”, Zimba expôs toda a sua
problemática, depositando naquele, que para ele era um super-humano, uma confiança que não sabia
sequer ser capaz. O profissional logo garantiu satisfação total ou devolução do
dinheiro. Acertaram o preço no valor de cem reais e o prazo de um mês para que a
namorada voltasse para o corno. Zimba saiu para comprar os apetrechos
solicitados pelo Pai-de-Santo, ou melhor, pelos orixás, tais: um copo de vidro
da marca Nadir-Figueredo, “virgem”, no qual ninguém tivesse bebido o sequer
colocado na boca; cem gramas de pimenta malagueta madura; uma calcinha da namorada;
e um machucador. O Nego-Véio de posse dos tais objetos, iniciou os rituais.
Colocou a calcinha da moça dentro do copo, pôs as pimentas sobre a roupa íntima
e passou a amassar as pimentas, sob os olhares hipnotizados de Zimba. Após
cerca de meia hora naquele mesmo movimento místico, o Pai-de-Santo entregou o
copo com seu conteúdo mágico e orientou ao cliente sobre a sua parte no ritual.
Zimba deveria colocar o copo debaixo de sua cama, mas nas três sextas-feiras
vindouras precisaria deitar-se debaixo da cama e, com o copo nas mãos,
pronunciar com os olhos fechados: “Meu amor volte pra mim, meu amor volte pra
mim, meu amor volte pra mim”. No momento do pagamento da consulta, Zimba se
lembrou que precisou gastar dez reais com os produtos solicitados pelo
milagreiro, e assim só lhe havia restado a quantia de noventa reais. Isso lhe
obrigou a pechinchar e obteve um desconto de dez por cento.
Na primeira sexta-feira o ritual foi
protagonizado por Zimba com bastante entusiasmo. Ele não quis nem sair muito às
ruas para não ver a amada, pois isso poderia enfraquecer os “trabalhos”. Na
segunda sexta-feira, Zimba repetiu o cerimonial com força, mas no terceiro dia,
por conta da presença de visitantes na casa, o interessado teve de reduzir o
tempo do rito e não repetiu três vezes a sua fala, disse somente uma vez. No
dia seguinte, com toda a ansiedade do mundo para sentir o resultado, foi
acometido por uma implosão de todas as suas esperanças, inclusive das que nunca
soube que tinha, quando viu sua amada aos beijos com um “boy” numa praça
pública. Zimba tinha certeza de que o Pai-de-Santo havia falhado e que iria
exigir a devolução do seu dinheiro como prometido.
Na reclamação pela defesa do corno-consumidor, Zimba explicou as ocorrências, demonstrou tudo o que havia
acontecido, e o Pai-de Santo, estrategicamente, logo detectou que na terceira sexta-feira o
pretendente ofendeu aos orixás não tendo cumprido corretamente a sua parte. Ao
pedido de devolução do pagamento feito por Zimba, o Místico disse que a
devolução do dinheiro se referia a somente cinquenta por cento, o que foi aceito. Mas como
Zimba havia pechinchado no dia da consulta, o Pai-de Santo revelou que o
desconto de dez reais foi retirado da parte agora cabida ao cliente, tendo
lhe devolvido somente a quantia de quarenta reais...






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