...A vítima, como de costume, virou-se de costas, pois, pela experiência, sabia que nessa área doía menos, principalmente se prendesse a respiração...Naquele dia Olívia estava, do seu jeito, feliz. Saiu com a família para fazer uma cobrança de trinta reais, pois o marido Brutos havia permitido que ela prestasse serviços de "boca de urna" para uma candidata a vereadora, a qual prometera pagar após as eleições. Brutos havia prometido que, com esse dinheiro, sairiam à noite para comerem uma pizza na praça. Era a realização de um sonho. Ela antegozava o momento em que estaria sentada a uma mesa de uma pizzaria com seu marido e sua filha de três anos. Imaginava o prazer que experimentaria quando todos estivessem olhando para ela com sua família, e pensariam que era uma família normal. Ela se sentiria importante, componente da sociedade, com o título de Mulher-Casada.
No seu êxtase, o caminho estava florido, caminhavam ao som de passarinhos e à brisa da primavera, até que o marido lhe questionou sobre o endereço da devedora, e a Olívia explicou: "Ela me disse que é no bairro do Porto, numa rua que tem uma casa na cor vermelha, que é a cor que ela gosta". O marido perguntou por que a mulher não procurou saber de mais detalhes, e Olívia respondeu: "Ela não me disse..." O Marido, então, passa a esbravejar com a Olívia: "Você é uma burra! caiu no papo de promessa de política! Eu deixei você trabalhar e você trabalhou de graça?!". A mulher parou, se encolheu em sua insignificância, como se estivesse se preparando para apanhar. Brutos tomou o pequeno guarda-chuva que a mulher trouxera como prevenção em caso de chuva, e passou a golpeá-la, repetidamente, na cabeça. A vítima, como de costume, virou-se de costas, pois, pela experiência, sabia que nessa área doía menos, principalmente se prendesse a respiração. A filhinha que assistia a tudo, passou a chorar traumatizada, utilizando-se da única arma, na infantil ilusão de que comoveria o pai e este pararia de bater na "mamãe". Uma pessoa que passava no local, tentou intervir, mas o Brutos retrucou: "É um probleminha de família. Saia do meio, porque ela é "minha" mulher!" Cruelmente especialista, Brutos, tomou e reteve a criança consigo e sentou-se à porta de um bar, pediu uma cachaça, e mandou que a mulher seguisse na missão quase impossível de encontrar a devedora e receber os trinta reais, impondo-lhe um prazo de uma hora.
Olívia encontrou-se com a mesma pessoa que tentara intervir para impedir seu espancamento, e essa pessoa tentou lhe persuadir a entrarem na delegacia que estava ali a poucos metros. Olívia resistiu, mas a pessoa se mostrou irredutivelmente convincente e, praticamente, a empurrou para dentro da delegacia e lhe apresentou a uma policial feminina, chamada Tereza, muito atenciosa e gentil, ao ponto de ser apelidada de Madre Tereza de Calcutá. A policial falou da Lei Maria da Penha, disse que o agressor seria preso e a vítima poderia, finalmente voltar a ser livre e feliz. Olívia foi acometida por uma sensação-sem-nome que lhe feriu o peito como um punhal adentrando no seu coração. A esperança fez folia na sua cabeça e sua alma se nutriu de um desconhecido amor próprio. Todos os conselhos que ouvira passaram, positivamente, a fazer sentido. Olívia projetou sua vida a partir daquele dia. Procuraria um emprego, seria independente e poderia criar sua filha num ambiente de amor, paz e harmonia. Naqueles minutos, experimentou um lindo sonho. A policial, ao ouvir que a Olívia havia trabalhado para uma candidata vereadora, comentou que no dia das eleições a tal candidata havia sido presa e que por isso perdeu a disputa eleitoral, e ali estavam todos os seus dados, inclusive, endereço e telefone.
Olívia, como que num despertar repentino, passou a dar informações falsas às perguntas da policial, principalmente, nome e endereço do agressor. Olívia se viu desnorteada e arrependida de ter entrado naquele lugar. Ela concluiu que, realmente, gostava muito do Brutos. Sabia, no íntimo, que ele era um bom homem e bom pai, apesar de às vezes perder o controle, mas era somente quando bebia... E quando usa drogas... Estava tudo bem. Tudo normal. Olívia precisava, agora, somente, receber os preciosos trinta reais. Cumpriria sua missão! Naquela noite sairia com sua família para comer pizza. Seria, do seu jeito, feliz.
Luis Borsan

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