BANQUETE NO INFERNO

By RoqeRom 



A cidadezinha do interior parece calma, silenciosa, pacata, hospitaleira.  Segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feira as poucas pessoas que trabalham honestamente seguem para suas atividades rotineiras; umas de carro, outras de motos, bicicletas e a pé. As crianças caminham para a escola sorrindo, brincando, correndo atrás umas das outras, parecendo inocentes anjos do céu. As evangélicas passam com as bíblias debaixo do braço a caminho do círculo de oração para orar pelos filhos e maridos usuários de drogas, traficantes, bêbados, jogadores de dominó, mulherengos, espancadores, naturezas ruins. O coveiro procura ansiosamente, pelas ruas, duas ou três pessoas para lhe ajudar a cavar urgentemente mais quatro covas, pois os defuntos já estão dentro da capela do cemitério esperando para comer terra depois de terem comido balas! Tem gente que pela manhã vai trabalhar na área rural, mas volta à tarde, pois no momento ninguém está querendo pernoitar na roça por motivo do alto índice de violência que varre todas as localidades rurais e ribeirinhas. Há falta de policiamento no centro da cidade quanto mais nas áreas mais afastadas onde nem a própria policia aparece com medo de quebrarem seus automóveis nas estradas completamente esburacadas e, portanto, ficarem também à mercê dos bandidos. Agora, a cidade tem fama de ser a segunda cidade mais violenta do país, segundo as ultimas estatísticas do governo. Mas, a população não sabe integralmente das coisas que estão acontecendo para se proteger e caminha despercebida pelas ruas e bairros fazendo de conta que existe relativa tranquilidade e paz. As poucas informações, que chegam de boca em boca, correm deturpadas e ninguém sabe nada ao certo. A cidade não tem um jornal, não tem um teatro, não tem uma emissora de radio para informar os constantes tiroteios, assassinatos, homicídios, assaltos, estupros, roubos à mão armada, roubo de carros, atentados, brigas, ameaças de morte, acidentes diversos que não dão tempo para a polícia investigar. Tudo fica no anonimato, respaldado pela impunidade, principalmente se os delinquentes forem menores de idade.


A falta de informação é muito boa para os governantes, pois dessa maneira poderão guiar uma multidão de cegos ao precipício, sem muito trabalho. Eles sabem que um país, um povo e uma cidade podem ser avaliados pela atenção que dão à imprensa! Os políticos sabem que uma cidade atrasada é apenas um acampamento cheio de idiotas, sem vez, sem voz, sem condições de ao menos reclamar seus direitos.


Como estava dizendo... Sexta-feira, à tardinha, colocam as correntes nas duas entradas da principal praça da cidadezinha mais festeira do país e a mesma é transformada no maior salão de balada do mundo. Nesse espaço a céu aberto, no meio da cidade, a orgia corre solta sexta à noite, sábado e domingo, e só é reaberto para o transito na segunda-feira, cheio de lixo, papeis, garrafas, copos, pratos, latinhas, restos de churrasqueiras, e até camisinhas e seringas...
Nesse ajuntamento, homens, mulheres, crianças, bebem sem parar todos os tipos de bebidas. Os usuários de drogas deitam e rolam. No local não faltam compradores e vendedores de entorpecentes, armas, produtos roubados.

Se o mundo inteiro jaz no maligno, como diz a bíblia, mesmo que haja locais, nesse mesmo mundo, onde a população procura andar decentemente, contrita, cuidando da saúde, vivendo muitas vezes sem fazer obscenos folguedos e cuidando de trabalhar para produzir bens e capitais, progredir em diversas situações e se pegando com Deus de corpo e alma... É perfeitamente compreensível como uma pequena cidade do interior onde a população se entrega completamente ao vicio da embriaguez, prostituição e outros males, vive. Levando-se em conta que para manter os vícios as pessoas fazem qualquer negócio, praticam qualquer crime, roubam, matam, compram fiado e ficam sujeitas a cobranças que chegam a pagar com a própria vida, aonde essa população vai se parar? Qual será o futuro desta gente viciada? Como serão o viver e o comportamento das gerações vindouras? Como será o caminhar dos descendentes destas criaturas de hoje?

Dentre os milhares de pessoas que frequentavam o local, todos os finais de semana, para se corromper, satisfazer seus desejos carnais, viscerais, sexuais, e vicejar com exuberância, dois grupos remanescentes de duas tribos de índios que povoavam essas bandas, há muitos anos, os tupiniquins e os tupinambás, que se destacavam pelas atrocidades que cometiam, eventualmente apareciam ao local. Eles vinham participar do que chamavam de banquete. Os tupiniquins moravam num lado da cidade, e os tupinambás no outro lado, divididos por uma imensa cachoeira. Os dois grupos não se davam bem. Eram inimigos implacáveis e quando queriam, por qualquer bobagem, se estraçalhavam ferozmente tornando a área um verdadeiro inferno de Dante com aquele fogaréu todo!

No meio da noite houve um apagão. E, quando as luzes se acenderam os participantes da festa verificaram que estavam completamente dentro do inferno, em carne e osso. Paredes de fogo, bem altas, cercavam infinitamente o local por todos os lados. Podia-se andar em todas as direções, mas nunca se chegava ao fim. Entretanto, apesar de alguns procurarem escapar, jamais conseguiam encontrar uma saída. Andavam em círculos, com a sensação de estarem presos, muito pior do que um passarinho que vê, ouve e voa, mas não consegue escapar da gaiola.




No inferno, pode-se caminhar a vida toda sem chegar a encontrar um lugar para descansar! Esta situação deixa o caminhante ainda mais angustiado, nervoso, perturbado, pois nunca se acha um pingo de água para beber e nada para comer. Comparando o inferno, o deserto do Saara é uma praia do Caribe! Somente o terrível pesadelo da solidão acompanha o desventurado. A aflição intensa provoca uma agonia corporal e mental tremendamente abrasadora. E um filme, de todos os momentos da vida, começa a passar pela cabeça da pessoa acusando e condenando-a. Um verdadeiro documentário! Nesse momento, muitos levam as mãos à cabeça em desespero, arrancam os cabelos, outros cavam buracos com as próprias mãos para se enterrar, mas nada adianta, pois não podem nem ao menos morrer para dar cabo imediatamente ao seu maldito sofrimento. Os maus sofrem com os seus pensamentos acusadores e dilacerantes sem terem a possibilidade de algum conforto que ao menos possa amenizar sua dor por um segundo sequer.



Num jogo de luzes, apareceu o dono do mundo e da cidade para ordenar o banquete macabro. Atendendo ao sinal que ele deu, os tupiniquins partiram pra cima dos tupinambás e começaram se dilacerar mutuamente e a comer uns aos outros com uma ferocidade tremendamente satânica. Com os poderes transmitidos pelo maioral, as pessoas que estavam no local começaram a virar criaturas aladas botando fogo pela boca. E, lambuzadas de sangue, comiam os pedaços umas das outras ainda vivas, sem piedade alguma, enquanto Lúcifer em pé no palanque comendo a coxa de uma moça, como alguém que come a coxa de uma galinha, gargalhava achando tudo normal e muito divertido.







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