"...Quando a menina esteve no paraíso, com diamantes, mas foi de lá arrancada à força e lançada para o lado escuro do mundo e da vida..."
Domingo de sol. Banho
de cachoeira. Que dia maravilhoso...! Nada poderia ser mais especial e perfeito
do que aquele dia, existente, até então, somente nos sonhos da menina. Passar o
dia na cachoeira com o seu namorado era uma grande conquista. Ela não sabia,
realmente, se ele era verdadeiramente seu namorado, pois até aquela data o amor
da menina era platônico, nutrido apenas por ela. Encontravam-se, às vezes, no
caminho da escola, quando a menina sentia seu coração acelerar, principalmente,
quando trocavam olhares, e ainda mais quando se cumprimentavam, ainda que fosse
somente por gestos. Mas depois daquele dia, não havia dúvidas, não precisava
falar, nem se necessitava de pedido de namoro. Estava subentendido que eles
eram, sim, namorados. Eles se beijaram pela primeira vez. Aliás, era a primeira
vez dela, pois ele já havia beijado algumas garotas. Eles falaram de sonhos
para o futuro, que queriam viver felizes para sempre, que queriam ficar juntos
até envelhecer, que jamais brigariam, que teriam filhos e os ensinariam a viver
com amor. Até escolheram alguns nomes para os futuros filhos e discordaram algumas
vezes, mas chegaram ao um consenso, quando disseram um ao outro: “tá bom, mas
do outro sou eu quem vai escolher o nome”.
O dia de sonho da menina seguia, não se sabia que horas
eram, nem, sequer, perceberam o tempo passar. O sonho só foi interrompido pela
ação da criancinha, do irmão mais novo da menina, que ficou todo o tempo dentro
da água, brincando, e quase não foi notado por eles. O menininho disse para a
menina, que estava cansado, com sono, com fome e que queria ir para casa. Ao choro do pequeno, eles perceberam que não haviam notado o
avançar das horas. A menina pensou no problema que a esperava, pois sua família,
certamente, estaria zangada com o seu atraso. Mas a menina, tomada por um
imenso torpor de felicidade, formado por um misto de maravilhosas sensações,
pensava, agora, a vida só pelo lado positivo. Explicaria tudo com sinceridade e
sua família a entenderia. Afinal todos os adultos já foram adolescentes. A
preocupação com as consequências de sua irresponsabilidade não competia com a
satisfação contida no coração da menina, visto que ela havia acontecido uma
revolução na sua vida e isso a colocaria em pé de igualdade com as demais
alunas de sua sala, e não seria mais a criança da turma. Eles estudavam na
mesma escola, ela com treze anos de idade e ele tinha quinze. Ela era uma
menina precoce e muito inteligente e já estava no mesmo ano escolar de jovens
com 15 anos. As meninas da sala já falavam de namoro, narrando suas próprias
experiências, enquanto ela falava dos sonhos inspirados nos inocentes livros de
contos de fada e de romances infanto-juvenis, que lia, principalmente, quando
estava triste; quando levava uma surra de seu padrasto, ou de seu tio, da tia,
da avó, da irmã mais velha e, até, de sua mãe que, apesar de parecer não querer
fazê-lo, era induzida pelos demais, que diziam “essa menina fala muita
maluquice e tem que apanhar para aprender a ser gente”.
O pai da menina havia falecido quando ela tinha apenas
cinco anos de idade, mas ela ainda tinha na lembrança as brincadeiras que ele
fazia. Essas lembranças, porém, iam ficando para trás, cada vez mais longe em
sua memória, principalmente, porque não havia mais quem brincasse com ela do
jeito que o pai fazia. A mãe da menina até que era uma boa mãe. Mas, após a
morte do marido, teve de se casar várias vezes, pois não havia estudado e
dependia de um casamento para se manter e sustentar os filhos; trocava de
marido a cada vez que ele exagerava na violência. Muitas vezes a menina fazia
parte da fuga, ao lado de sua mãe e seus irmãos que corriam às pressas, à
noite, pelos fundos, enquanto o padrasto estava dormindo bêbado. A menina não
sabia para onde estaria indo e sua angústia aumentava, quando questionava a mãe
sobre o destino e a mãe a reprimia violentamente com um “cala a boca”, mais
para se livrar da dor de ter de explicar o inexplicável.
Um novo padrasto. Um homem religioso. O melhor dos padrastos
que a menina teve. A família agora ia à igreja e seguiam as regras religiosas matematicamente.
O padrasto dizia que todo comportamento imposto aos enteados, era por ordem
divina. Mas, às vezes, a menina não entendia como Deus poderia impor tantas regras
difíceis, que pareciam maldade. Com o homem religioso, a mãe da menina teve
mais um bebê, e agora a menina ganhou o seu sexto irmão. Logo essa criança se
afeiçoa à menina e ela nutre um amor quase maternal pelo irmãozinho. Ela o leva
para todos os lugares. Na igreja a menina sempre ouvia falar em paraíso. Ouvia
sua mãe falar que sonhava em ir ao paraíso, presenciava seu padrasto afirmar
que iria ao paraíso. O paraíso significava um lugar perfeito, onde a paz
reinava, a alegria era perpétua, o sol brilhava sempre, nunca chovia, as flores
sorriam para a beleza da vida como no auge da primavera, e ali moraria a
felicidade.
A
menina saiu da teoria e passou para a prática no assunto de paraíso, naquele
dia na cachoeira. Realmente, ela confirmou tudo o que ouvia sobre paraíso...
Naquele dia, ela não experimentou sentimento algum que pudesse ser chamado de
negativo, de ruim, ou digno de arrependimento. Só não entendeu porque as
pessoas falavam que se teria de morrer para alcançar esse paraíso.
A
menina, com seu irmãozinho, fez a longa caminhada para casa, acompanhada do
seu, agora, namorado. Caminharam devagar, instintivamente, para prolongar por
mais alguns minutos o sonho que viveram naquele domingo feliz. Ele disse que a
levaria até em casa, como faz um homem, um cavalheiro. No ritmo romântico das suas
passadas, comparados somente com as batidas dos emocionados corações, chegaram à
rua em que ela morava, já à noite. Não entenderam uma aglomeração à porta da
casa da menina. Aos poucos se aproximando, passaram a ouvir as vozes se
repetirem: “ela chegou”.
A
mãe da menina correu desesperada, apanhou a criança pequena nos braços e se
afastou com gestos e olhares que denunciavam e lembravam a antiga omissão
diante das agressões protagonizadas por quase todos os parentes contra a
menina. A menina não temeu como das outras vezes. Parecia estar preparada,
fortalecida para o que previu que viria. Mas as suas forças de adolescente de
treze anos não foram páreo para a vergonhosa atitude de sua família. Mesmo com
toda energia contida na sua mente decidida e no seu apaixonado coração de adolescente,
a menina entrou em pânico e ficou paralisada, quando viu o que poderia ser
comparado, facilmente, com uma manada de verdadeiros animais. Toda a sua
família corria em sua direção. Não havia, sequer, um membro da família da
menina, que já não lhe tivesse batido. Com isso ela já estava acostumada.
Porém, todos, ao mesmo tempo, era uma coisa inimaginável. Eram mais de dez
pessoas batendo numa menina pequena, magra e com apenas treze anos de idade,
sem a proteção peculiar de um pai e sem o apoio devido da mãe. Eram tios,
primos, irmãos, irmãs, e até vizinhos que se juntaram aos parentes da menina
para se vingarem dos transtornos causados pela jovem. Não poderiam suportar
tamanha preocupação durante todo um dia de domingo. Alguns ficaram sem poder ir
à igreja, outros não puderam promover as tradicionais “cachaçadas-dançantes”. A
menina era culpada por tudo, por estragar o domingo de tanta gente boa, e
deveria ser castigada.
Quando
a menina já estava inerte ao chão, clientes de um botequim, em frente, que ali
já estavam desde a manhã, ingerindo cachaças baratas, não se sentiram impedidos
pelo adiantado estado de embriaguez, para socorrer a menina. Eles abandonaram o
bar, a cachaça, o futebol e salvaram, brevemente, a menina. Contudo, antes que
a menina se levantasse, uma nova sessão de pancadaria contra a infeliz que parecia
ser a maior das criminosas. Os bêbados já não conseguiam proteger a menina, e a
sequência de violência continuaria. De repente alguém gritou “polícia!”. A
menina estava salva, finalmente.
Na
delegacia, os familiares da menina decidiram que não mais aceitariam a menina
em casa, pois concluíram, preconceituosamente, que a menina havia se
relacionado sexualmente como menino. Agiram assim, escravizados pela doutrina
social tradicionalista que preceituava que ao se relacionar sexualmente, a
filha perde o título de moça e consequentemente, deixa de merecer o benefício
de ser mantida pela família, e que essa responsabilidade passa a ser do rapaz
com quem se relacionou. A menina chorou muito, mais pela angústia de não
entender o motivo dessa decisão tão drástica, do que pelo castigo tão cruel.
Apesar de ter sido criada no mesmo contexto familiar sócio-cultural, a menina se
recusava a aceitar certos comportamentos por achar que as regras que regiam
tais comportamentos não eram infalíveis e tornavam as pessoas matematicamente
robotizadas. Achava, também, que as próprias pessoas poderiam gerir seus
próprios comportamentos baseados na vontade de fazer o bem e de melhorar o
mundo.
Mesmo
alertados e advertidos pelo Policial sobre suas responsabilidades legais, os
familiares da menina mantiveram suas convicções, vez que essas eram
irredutíveis e necessárias para a manutenção da honra da família. Repetiam:
“Ele tirou ela de casa”. Vai ter que casar!
O
menino, até então, não havia tido chance de falar, de se explicar. Amedrontado
pela violência física demonstrada pelos familiares da menina e também pelos
olhares ameaçadores e condenatórios que recebia durante todo tempo, surpreendeu
a todos dizendo que assumiria sua responsabilidade e que se casaria, sim, com a
menina. Porém, como não trabalhava e não tinha como manter uma família, o casal
iria para a casa dos pais dele. Mas a menina, ao invés de demonstrar alegria
com a decisão surpreendente do menino, ficou triste e disse que queria namorar,
mas não casar. Argumentou que ainda era muito jovem. A família retrucou e insistiu
com a menina para que ela se casasse, e a lembrou em tom de advertência que ela
não teria mais a casa da família para morar. Sem ter para onde ir e como se
manter sozinha, a menina saiu dali para a casa dos pais do menino, como numa
espécie de uma trágica lua-de-mel, após o seu casamento, na Delegacia.
O RESULTADO
Os jovens recém-casados
deixaram de estudar. A menina passava o dia em casa, ajudando nas tarefas do
lar, enquanto o menino passou a trabalhar em subempregos, em períodos
irregulares, torcendo para que a nova demissão demorasse mais para ocorrer do
que a anterior. A vida se mostrou em seu lado avesso, muito cedo, ao casal de
jovens. O rapaz ficou desempregado, mais uma vez. Mesmo estando na casa dos
pais do rapaz e estarem sendo bem tratados, a menina sonhava em ter um lar
verdadeiro, somente do casal. O Rapaz tentava acalmar a ansiedade e frustração
da menina, fazendo promessas de dias melhores, projetando sonhos de progresso,
sucesso e felicidade, arrancando sorriso de antegozo da menina. Assim ele
vencia os dias difíceis. Adiando todos os problemas para o dia seguinte. O
fracasso de um casamento edificado de uma maneira tão torta, foi ficando cada
vez mais evidente, protagonizando o principal motivo do desamor, até que houve
a primeira separação. O casal, porém, não tinha, sequer, esse direito. Pois a
menina não tinha para onde ir, e o rapaz não poderia sair da casa dos seus pais
e deixar ali uma pessoa já sem vínculo com a família. Assim, a separação se
refletiu em alguns dias sem se falar. Novamente empregado, houve a
reconciliação sob mais uma promessa do rapaz em arranjar, finalmente, uma casa.
Agora num barraco, de aluguel, conviviam com mais o problema. Com as faltas de
dinheiro e de mais argumentos, tinham que se esconderem do proprietário a cada
final de mês. Com uma vida cada vez mais indigna e desumana, foram sobrevivendo,
aos trancos e barrancos, a todas as mazelas que a vida lhes apresentava.
O SEMI-FILHO
A notícia de uma gravidez, que deveria ser motivo de
alegria e comemorações, surgiu lastreada de preocupações, lamentações e
desespero. Como poderiam criar e educar uma criança nas condições precárias em
que viviam? Perguntaram juntos, sem saber a quem questionavam. Como se fosse
uma resposta, após ter dito ao rapaz que iria a uma farmácia para comprar
remédio para dor de cabeça, a menina foi acometida de um aborto espontâneo.
Experimentou uma sensação sem-nome, que lhe fez engolir a seco. Não era
alegria, não era tristeza.
A VERDADE ESTÁ NO VINHO
O Rapaz saiu de casa para ir ao supermercado, mas ao
passar em frente a um bar e ver vários homens bebendo, conversando, rindo...
Pensou no porquê de nunca ter podido fazer uma coisa daquelas... Resolveu
entrar para se sentir homem. Naquele lugar, finalmente, o rapaz encontrou a
verdade. O álcool lhe fez ver o que ele próprio vinha escondendo de si, mesmo.
Ele chorou e teve um verdadeiro contato com sua consciência. Sentiu-se homem,
poderoso, não se sentiu mais inferior nem como um infeliz escravo. Tomou
decisões que estavam contidas somente na sua própria cabeça. Daquele dia em
diante sua vida iria mudar. Ao chegar a casa, não teve respostas imediatas a
dar à menina quando ela perguntou pelos alimentos, os quais o rapaz saiu para
comprar. E, antes mesmo de ele falar da sua boa nova, houve uma briga terrível
entre o casal. O rapaz foi acometido de uma fúria alcoolicamente
potencializada, e agrediu a menina que, para se defender, o feriu gravemente,
com uma faca.
FINAL (IN)FELIZ
A menina foi presa. Na Delegacia, ela
se encontra com o mesmo policial que lhe fez o casamento e ambos se
surpreendem. A menina foi informada de que seu marido não resistiu ao ferimento.
Morrera. Recebeu voz de prisão e ficou sabendo que estaria presa pelos próximos
vinte anos. Nesse momento, a menina suspira, como que num alívio. Estala um
sorriso, visto pela última vez em seu rosto, somente naquele dia de alegria, na
cachoeira, com o seu amor, naquele que parecia seu primeiro e último êxtase de
felicidade... Quando a menina esteve no paraíso, mas foi de lá arrancada à
força e lançada para o lado escuro do mundo e da vida. Agora dentro de uma
cela, sozinha, teve, finalmente, uma sensação muito parecida com a daquele dia
na cachoeira. Sentiu-se livre. E de novo com a chance de ser feliz. Diferente
daquele dia em que foi feliz e que sua felicidade durou muito pouco, agora
tinha a certeza de que teria seu tempo de prisão para exercitar e usufruir dos
benefícios do principal combustível da vida. Uma coisa que há muitos anos não
tinha. A esperança.

0 comentários
Postar um comentário