UMA CONSEQUÊNCIA DA LEI MARIA DA PENHA

     UM MOMENTO PODE MUDAR TUDO     


...Quando foi arrastada impiedosamente em direção à cisterna, ela tinha a mais absoluta certeza de que aqueles eram seus últimos momentos de vida...


     Aquela família vivia normalmente bem. Morava no periférico bairro de Praia Pequena e tinha contato com todas as características dos sub-mundos que permeiam essas comunidades. O casal, Calango e Sônia, de vez em quando brigava, mas o marido, muito magrinho e calmo, logo recuava, diante da reação amedrontadora da mulher com sua personalidade muito forte, herdada da mãe. Aos sábados, dia de feira na cidade, era também o dia de extravasar. O marido ia fazer as compras e ficava até mais tarde com os amigos de infância da roça, contando "causos" e bebendo cachaça. Mas tudo bem. Era dia de sábado e a mulher não brigaria com o marido, pois ele estaria trazendo para casa os mantimentos da semana. As gêmeas, de sete anos, Vera e Vívian corriam ao encontro do pai, logo que ele aparecia na distante esquina que se tornava perto devido à velocidade da corrida das meninas, tão ansiosas pelos mimos costumeiramente trazidos pelo papai, como doces e brinquedos. As meninas eram a alegria da casa, viviam sempre juntas, estudavam na mesma escola, compartilhavam sempre as mesmas brincadeiras, vestiam-se e penteavam-se da mesma forma, pois essa cultura era mantida pela família. As gêmeas de Calango e Sônia eram uma atração na rua onde moravam.

     Com o advento das drogas, e, principalmente, com seu avanço para a zona rural, os amigos de infância e colegas do trabalho rural apresentaram a droga crack a Calango. A "viagem" proporcionada pelo psicotrópico e protagonizada pelo usuário, fez sentir prazeres inimagináveis àquele simplório homem. Em pouco tempo o pai de família passou a sair de sua rotina, pois passou a querer repetir as tais sensações-sem-nome que experimentara com o crack. Dessa forma, tudo o que se interpusesse entre Calango e o crack era um obstáculo que precisaria ser transposto, destruído. A família logo sentiu as mudanças. Calango diminuiu o valor das compras semanais na feira, e até o dinheiro dos mimos das meninas passou a ser economizado para que ele pudesse consumir o crack em maior quantidade, pois era, agora o seu maior, ou único prazer.

    Em certo dia, Sônia preocupada com a demora do marido na feira, foi a sua procura e o encontrou sem as compras, sem dinheiro, pois havia gastado tudo, com a droga. Acometida de descontrole raivoso, a mulher proferiu palavras que feriram de morte o marido, em público. O homem, agora, mais homem que os outros, acometido de uma coragem até então desconhecida de todos, partiu para agressão física contra a mulher que, mesmo sendo muito forte, não conteve o "poder do crack". A Polícia apareceu e prendeu o homem, citando "Maria da Penha" (Uma lei brasileira específica de repressão à violência contra a mulher). Na delegacia, preso, mesmo havendo alimentação estatal, a mulher continuava a levar diuturnamente alimentação para o arrependido amado. Aos domingo, as gêmeas visitavam o pai na cadeia, e todos nutriam a esperança de estarem juntos novamente, como uma família, em pouco tempo.

     Com a manutenção da prisão, a mulher passou a ter dificuldade de se manter e cuidar das filhas. Deixou de pagar o aluguel da casa e foi despejada. Passou a morar na casa da própria mãe, mas ali já havia outras irmãs que engravidaram cedo e superlotavam a residência dos pais, com seus muitos filhos. faltava espaço, inclusive para dormir. Sabendo da situação humilhante de suas filhas, Calango orientou que a mulher fosse para a casa da mãe dele, na cidade das árvores silvestres. Mas em pouco tempo a sogra de Sônia não conseguiu mais esconder a insatisfação com a situação de seu filho, e passou a atribuir a culpa da prisão de Calango à pobre mulher. Sentindo-se pressionada e tomada de forte angústia, em sua ignorância, chegava a se convencer de que era ela, realmente, a culpada por toda a situação calamitosa que assolava a família. A convivência na casa da sogra ficou insustentável, até que decidiu ir embora. Mas com mais um golpe de crueldade da vida, teve de deixar ali uma das gêmeas. Vívian aparentava gostar daquela casa e foi escolhida para permanecer com a avó paterna. A Despedida entre as inseparáveis irmãs foi a parte mais doída para a mãe, que teve de assistir juras de eterno amor fraternal entre as duas meninas que, mesmo sob reclamações pela demora, no último momento se entregaram num longo abraço, tão apertado que parecia sufocar o próprio amor.

     A ingênua menina, de tanta saudade de sua alma-gêmea, passou a ser acometida de uma disfunção urinária, e todas as manhãs sua avó paterna constatava com veemência e repressão, que a cama da neta estava molhada. A cruel idosa, como que numa espécie de vingança, obrigava a criança a colocar o colchão ao sol e ficar prostrada ao lado, exposta a uma situação que lhe causava constrangimento, pois todos que passavam, viam a cena e logo associavam a um castigo por ter feito xixi na cama.
Uma menina que morava na vizinhança, com os mesmo sete anos de idade de Vívian, compadecida com aquela humilhação diária, lhe disse que havia ido a uma igreja e que aprendera que tudo que quisesse, deveria pedir a Deus. Na sua inocência, Vívian passou a pedir a Deus, que sua avó não mais lhe colocasse de castigo ao lado do colchão, do outro lado da rua. Na manhã seguinte, o dia amanheceu nublado e cinzento, sem sol. Graças a Deus! Não adiantaria colocar o colchão ao sol, ainda mais porque estava seco. A menina pensou, inicialmente, que Deus havia atendido ao seu pedido, mas logo se decepcionou ao perceber que o castigo, agora, seria tão ou mais cruel. A avó lhe forçou a lavar os lençóis da cama da idosa, visto que a avó, dessa vez, molhou a própria cama e atribuiu isso a uma espécie de contaminação da "doença" da menina. Para essa lavagem a avó retirou um balde de água de uma cisterna no quintal da casa. Naquele momento, a vingativa idosa, se deleitando num mórbido prazer em maltratar a criança, como se aquilo pudesse amenizar sua dor de estar com o filho preso, fez com que a menina olhasse para o fundo daquela cisterna (espécie de poço). Segurou com uma das mãos a menina pela nuca, fazendo com que a vítima indefesa permanecesse por um tempo, que pareceu eterno, debruçada olhando as profundezas daquele buraco escuro e aterrorizante. A pequena chorava, soluçava, no pânico naturalmente infantil de sua ingenuidade angelical. Não satisfeita, a malévola avó, para culminar sua crueldade, ainda ameaçou: "se você mijar na cama de novo, amanhã eu vou jogar você aqui dentro!" A quantidade de lágrimas vertidas pela pequena vítima sofrida se somavam às águas que lavavam os lençóis mijados.

     À noite, além da saudade da inseparável irmã gêmea e da mamãe que afagava seus cabelos na hora de dormir, Vívian estava angustiada e experimentava um sentimento inédito, que lhe fazia engolir a seco, lhe causava falta de apetite e dificuldade para dormir. Talvez não quisesse pegar no sono para não ter que incorrer no risco de fazer xixi na cama, vez que estava ameaçada. Deitada na cama, num quarto escuro, a menina via apenas frestas claras no telhado. Sentiu-se muito só, mas lembrou-se do que a nova amiga havia lhe falado sobre Deus, que Ele atende a todos os pedidos. A menina já tinha motivos para duvidar, mas, ainda assim, desceu da cama com dificuldade, no escuro, ajoelhou-se, juntou as mãozinhas, fechou os olhos e se esforçou para lembrar de uma reza. A memória lhe foi infiel. Ela apertou os olhinhos com toda força, mas a memória não veio, talvez pela ansiedade e medo que lhe incomodava desde a momento em que foi forçada a olhar para dentro daquela cisterna. Resolveu subir, novamente, para a cama, desolada, sentindo-se culpada por não se lembrar da reza, aquela que era sua única arma para livrar-lhe do prometido castigo, caso urinasse na cama. Não tardou ser vencida pelo cansaço, dormiu um pesado sono dos anjos. Vívian sonhou que estava, novamente, com sua família, sorria de felicidade, abraçava sua irmã num abraço ainda mais forte do que aquele de quando se despediram, que causava até aplausos das pessoas que lhe assistiam de dentro de uma piscina, ou era uma cisterna? Vívian sentiu medo e afastou seu gatinho que se aproximava perigosamente da cisterna, o gato miava muito forte, repetidamente miava, ela o acariciava, o tentando acalmar, mas ele continuava a miar como se estivesse com medo.

     Amanheceu! A menina acordou, mas não abriu os olhos. Tentou contar com o sentido do tato para perceber se a cama estava molhada ou não. Demorou para ter certeza, talvez porque estava com medo de se mover e descobrir a verdade. Ainda com os olhos fechados, estendeu os braços e passou as mãos por baixo do seu corpo e sentiu uma frieza! Será? Abriu os olhos e, antes mesmo que pudesse olhar para a cama molhada, a avó invadia o quarto fitando a menina com um olhar tão cruel e raivoso, que feria a alma daquela pobre criança que tremia. A velha ficou de pé, parada, curtindo o pavor que provocava na vítima. A menina prevendo tudo que lhe aconteceria, falou com a voz estremecida: "desculpa vovó..."

     A mulher sorriu. A menina sentiu-se  aliviada por um momento, mas de repente a velha puxou a garotinha por um dos braços e começou a gritar repetidamente: "eu não disse que ia te jogar na cisterna, se você mijasse na cama?!". A menina tentava resistir, mas era arrastada na direção da cisterna. Sua ânsia era tamanha que sequer conseguia chorar ou gritar por socorro. A mulher achou que a menina parecia ter ficado mais forte, pois estava mais pesado puxá-la. E só quando chegou bem perto da cisterna, percebeu que a menina estava desmaiada. Inicialmente, ela pensou que seria alguma estratégia de defesa da garota, e a deixou ali mesmo, no chão e passou a ordenar que se levantasse, sob ofensas. Só cerca de dez minutos depois percebeu que a situação era séria e decidiu socorrer a vítima e colocá-la numa cama. Ao acordar do desmaio, a menina, aterrorizadamente, passou a mão no lençol e se certificou que estava seco e respirou fundo, mas nem isso lhe causou alegria. A menina estava demasiadamente triste, olhos sem brilho e sem vida, não falava, não comia, não bebia. Parecia não querer mais viver. A mulher cruel na sua insana sanha, dizia que a menina estava fingindo, e ordenou que se levantasse. Só nesse momento se percebeu que a menina estava sem forças nas pernas, tendo caído ao chão e não foi capaz de se levantar. Após meia hora, a tal mulher apanhou a criança e colocou na cama.
     No dia seguinte, a mulher cruel entrou no quarto da menina esbravejando, se maldizendo da sorte porque aquela menina lhe estaria tirando a paz. Gritou, xingou: "nem pense que você vai ficar o dia todo nessa cama com frescura, não. Ouviu mijona?!" Tentou puxar a menina pelas pernas e ao segurá-las com as duas mãos, percebeu que a cama estava enxuta. A menina não iria mais mijar na cama. Pelo tato, a mulher sentiu que Vívian estava fria.

Luis Borsan


4 comentários

  1. Croou-se a Lei, melhorou em alguns pontos e a violência cresceu...
    Paradoxal está situação de pontos antagonicos
    Qual o problema e a solução.
    Resposta: a impunidade é a razão do problema.
    Tratar-se a todos por igual como reza a Carta Magna, a nossa Constituição.

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  2. Parabenizar o autor do Blog pela iniciativa de abrir mais um espaço democrático para o debate com sentido do conscientização da cidadania

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