"Não posso mais fazer a devida homenagem e agradecimento diretamente e sentir sua reação. Deixei para amanhã... Perdi a chance."
“Não
vos preocupeis com o dia de amanhã, pois cada dia já tem o seu próprio mal” Mateus 6, 34
Uma
das boas lições do meu pai consistia em não deixar para amanhã o que você pode
fazer hoje.
Se
eu o tivesse ouvido e colocado em prática essa boa lição do meu pai, eu não
estaria agora escrevendo este texto, com o coração partido, arrependido de não
ter dito ao meu velho pai tudo o que eu já tinha descoberto a necessidade de
dizer.
O
meu colega Élton Mário me disse que fez uma carta aos seus pais, justamente
para não sentir o que sinto agora. Ele agradeceu por tudo. Pelo esforço de seus
pais em criar os filhos com honradez e retidão, no caminho do bem, sendo,
principalmente, exemplo.
Eu
tinha o texto na cabeça. Escreveria agradecendo pelo empenho dos meus pais em
terem formado minha personalidade de uma composição perfeita, com um pouco de
cada um... A inteligência, perspicácia e disciplina no comprometimento com as
coisas certas e bem feitas, senso de realidade, pensamento crítico... Isso foi do
meu pai. Da minha mãe herdei o lado sentimental, poético e sonhador...
Agradeceria
especificamente por atitudes simples de cada um, mas que na época valeram como
ganhar na loteria. A meu pai diria que me lembrava de forma vívida das manhãs
de natal, quando eu e meus irmãos acordávamos ansiosos pelo presente deixado
pelo Papai-Noel. E ali estava cada presente sobre os calçados de cada um... A
emoção experimentada naqueles momentos não é possível descrever com palavras.
Outra lembrança terrivelmente brilhante, eram os passeios à praia em Ilhéus, no
velho VW-Fusca. Esses passeios me causavam uma extasiante alegria, que começava
no dia anterior. Minha mãe antecipava as compras de domingo na feira-livre e
todos antegozavam o amanhecer, dificultando pegar no sono. Acordávamos cedo
pedindo a Deus que não chovesse. Interromper aquele sonho, nem pensar! Tanto
que num certo domingo da minha infância, amanheceu chovendo... Meu pai em seu
otimismo iniciou a viagem de Itabuna-BA-BR para Ilhéus-BA-BR, acreditando que
no destino não teríamos chuva. Ledo engano. Chegamos à praia e a chuva não
cessava. Meu pai vendo o desânimo de todos, surpreendentemente, sugeriu que não
perdêssemos a viagem. Descemos, na chuva, e tomamos banho de mar! E de chuva.
Foi uma loucura. Outra lembrança marcante foi o fato de eu ter perdido uma bola
e, após um bilhete emocionado ao meu pai, que só chegava tarde à noite, pela
manhã encontrar no meu bilhete, a inscrição “vire” e no verso: “Você também é
um filho muito bom. Pode pegar a bola que está em cima do guarda-roupa”. Aquela
que era exclusiva para se brincar na praia. Outra lembrança chocante foi num
sábado dos meus seis anos de idade. Meu pai estava em casa, sentado numa
cadeira de ferro e forrada com cordas de nylon, construída por ele mesmo. Eu
recebi um banho de minha mãe e, arrumadinho, com cabelos molhados e penteados
de lado, passei pelo papai em direção à porta, quando ele me questionou para
onde iria. Respondi que iria ver televisão. Ao portão da casa da vizinha em
frente, eu tentava enxergar algumas cenas da série Tarzan, entre os outros
garotos à minha frente, insensíveis aos meus pedidos de “com licença”. Diante
de tantos ângulos tentados em vão, não consegui assistir ao programa, olhei
para trás e meu pai estava me olhando. Senti tristeza e voltei para casa.
Sentei-me ao seu lado e ele me disse alguma coisa acalentadora. Não me lembro
bem o quê. Sei bem que no sábado seguinte, parou um carro à porta da minha
casa. Era uma VW-kombi com carroceria de madeira, transportando uma grande
caixa de papelão. Não consegui decifrar as escritas contidas na caixa. Mas
quando a abriram, foi, mais uma cena, sem descrição léxica. Era uma televisão...
Meu pai certamente havia feito um grande esforço financeiro para aquela
aquisição. Tudo para mim... Aos nove anos de idade, numa terça-feira, 25.12.1979,
lembro bem! Por volta das 03h00, fui acordado com um barulho de buzina. Do alto
do meu beliche, ainda com os olhos nublados, vi um sonho materializado na minha
frente. Uma coisa inacreditável. Fiquei tão atordoado que em vez de perguntar “é
minha”, disse “é meu?!” quis descer da cama, mas meu pai, um pouco decepcionado
por ter estragado a surpresa, lamentou-se por ter acionado, para testar, a
buzina da bicicleta. Era linda, marca Monark-monareta, verde com adesivos
laranja... Tentei dormir, mas foi impossível. Acordei os três irmãos e ficamos
todos esperando o amanhecer, saímos todos para a rua para, principalmente,
mostrar o nosso troféu, nossa nave espacial, nosso tudo. Meu irmão mais novo, Rogério,
que ganhara uma corneta, como um anjo anunciava a boa nova. Tem ainda uma outra
lembrança. Eu já com quinze anos de idade, danifiquei acidentalmente um relógio
de um colega, Murilo. Uma tragédia. Sem saber como, confessei o erro ao meu pai e disse
o valor do conserto. Pela manhã havia uma quantia, inclusive, a mais. Paguei o
valor do conserto, fiquei bem na escola perante os demais colegas, e ainda me
sobrou um troco com o qual fui ao shopping com um amigo, Evandro, e comemos coxinhas e
quibes com, para mim novidade, mostarda. E quando eu virei o carro de meu pai, ele
chegou e eu esperava o pior da parte dele, mas meu pai me abraçou, comemorou
por eu estar vivo e disse que o carro seria consertado...
A
minha mãe, aproveito para agradecer enquanto é tempo, pelo esforço de me levar
todos os dias dos dois anos da pré-escola, sempre comprar meus materiais
escolares, sempre presentear as minhas professoras, falar para as vizinhas com
orgulho das minhas notas escolares no final do ano, por comprar pipocas sempre
que ia ao centro da cidade; por ter se orgulhado dos elogios que recebi quando
fui rejeitado num emprego que estava aquém da minha capacidade, por me apoiar
quando decidi pedir demissão de um emprego ruim, por ter pago seis meses um
compromisso que não pude cumprir por estar desempregado, por pagar um curso
preparatório de concurso sempre apostando em mim; por pagar a inscrição do concurso
que me deu o emprego atual, por acordar às 05h00 para preparar minha marmita,
por sempre receber bem meus amigos, por ter me proporcionado tantas alegrias,
mesmo tendo tido uma vida sofrida; pelas conversas confidenciais madrugada a
dentro, por eu chamá-la de “mamãe”, pelo amor incondicional, há quem diga
doentio, que nutre por mim e que eu só entendi perfeitamente após o nascimento
da minha única filha, Laura; pelo dia do meu aniversário, em que me acordou ao som da música
“Eu quero ter um milhão de amigos” de Roberto Carlos, quando repetia
exaustivamente o trecho “...Quero meu filho pisando firme, gritando alto, sorrindo
livre...”. Obrigado minha mãe. Eu me lembro, o chinelo na mão, o avental todo
sujo de ovo... Seu pudesse queria outra vez mamãe, começar tudo, tudo, de novo...
Às
vezes esqueço que meu pai morreu, tamanha é a sua presença na minha vida, nas
minhas atitudes e palavras... Meu primo, Domingos-Babá, me perguntou se eu sabia o número da sepultura
do meu pai... Eu disse que isso não me importava, pois aquele enterrado não é
meu pai, e sim o corpo que foi utilizado por ele aqui na terra. Meu pai está
vivo em mim e em suas obras.
Não
posso mais fazer a devida homenagem e agradecimento diretamente e sentir sua
reação. Deixei para amanhã... Perdi a chance. Agora meu pai se foi...
Mas
como só me resta isso, agradeço... Agradecerei para sempre...
OBRIGADO MEU PAI !!!!



Hoje decidi ler novamente essa obra de arte (enquanto ouvia o soneto de fidelidade de Vinicius), que é crédito de quem escreveu, mas o crédito maior, sem dúvidas, é de quem inspirou a obra! Obrigada pelo texto, meu padrinho, mas meu obrigado mais sincero vai para Deus, por ter nos proporcionado viver ao lado de uma ilustre criatura divina: Abdala!
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