"O filme abaixo retrata um ser que, cansado de estar sozinho na multidão, viaja da sua época (1976) para o futuro, adquire as tecnologias desse tempo (dias atuais), retorna ao tempo das cavernas e presenteia seus antepassados com os objetos de alta tecnologia, com o intuito de elevar o patamar da consciência humana, para quando, ele, voltar a sua época, (1976), encontrar as pessoas no mesmo nível mental que o seu, capazes de, finalmente, lhe entenderem, na sua mensagem principal, de que para ser livre, deve-se expandir a mente e ser uma Metamorfose Ambulante..."
No ano de 1974 Raul Seixas foi expulso do Brasil pela Ditadura-Militar, por causa de suas ideias revolucionárias que pareciam anarquistas ao governo. Isso principalmente depois da composição da música Sociedade-Alternativa que, ao Raul, era apenas mais uma expressão do seu pensamento filosófico. Ocorreu que um dos fãs entendeu a música como uma mensagem do além-terra, com a receita para a construção de um novo mundo. Esse fã fez chegar até o Raul, a informação de que estaria doando um imenso terreno em Minas Gerais para a construção da tal Sociedade-Alternativa. O governo militar não gostou, nada, disso e mandou exilar o Raul que, ao que parecia, seria o presidente desse novo reino que já nascia com muitos seguidores. Segundo relatos do próprio Raul, em entrevistas, ele foi preso e torturado para revelar todos os planos rebeldes dessa Sociedade-Alternativa e já sabiam, os militares, da doação do terreno. Raul insistia que, por parte dele, era só uma música, enquanto se espremia aos choques elétricos no ânus e nos testículos. Após essa "sessão das dez", Raul, conforme ele mesmo disse, foi convidado, educadamente, a se retirar do país, tendo ido para os Estados Unidos. Sem dinheiro passou a tocar nas ruas à espera de moedas em seu chapéu de cowboy no chão, imitando os artistas estadunidenses de rua. Numa certa oportunidade cantou num bar mais qualificado, quando encontrou-se com a fera do rock Jerry Lee Lewis e chegaram a dar uma palhinha juntos, até que o velho Raul sentiu vertigem ao se lembrar que era apenas um baiano, mas que estava ali realizando um dos seus sonhos, o de conhecer um dos seus ídolos musicais da juventude... Chega, posteriormente, a se encontrar com John Lenon, que lhe diz, após conhecer suas ideias: "você devia ter nascido aqui".
Antes de viajar, porém, Raul havia gravado a música Gita (expressão que se refere a um guru indiano) e esse música estaria estourando nas paradas de sucesso de todo o país, e as pessoas questionavam: "onde está o Raul?" Tanto que o governo, não querendo ser impopular em ter que explicar que havia exilado mais um, se vê obrigado a fazer retornar o "Maluco-Beleza". Nesse retorno, o Raul se encontra com a velha turma rebelde que lhe questiona a quietude, no que ele responde com a música METAMORFOSE AMBULANTE, para explicar a mudança de postura, para explicar que estava mais comedido, mais inteligente, porém não menos contestador. A música falava da necessidade de o ser humano se adequar à dinamicidade da vida e à efemeridade de suas circunstâncias. Mas ia de encontro às normas sociais de obediência cega ao sistema político vigente à época, e, consequentemente, a maioria das pessoas estava, naturalmente, com a cabeça fechada para entender a essência da composição. Assim Raul era chamado de "maluco", de "à frente do seu tempo". Jô Soares revelou em seu então programa de televisão, que gostava de ver os shows do Raul, porque, mesmo com a presença da censura federal nas apresentações ao vivo, Seixas falava contra o governo, mas não era rechaçado, pois suas parábolas nem sempre eram entendidas pelos fiscais. Os tempos estavam mudando e a censura não estava mais tão explícita, e o boicote da mídia era a principal arma do sistema dominador. Dessa forma Raul era vítima de uma espécie de desprezo e indiferença. Propositadamente, não se falava nem bem nem mal do Raul. A ordem era esquecer o Raul Seixas. Mesmo com o sucesso de Gita que lhe rendeu o primeiro disco de ouro, ele quase reviveu a experiência de "ter passado fome por dois anos na cidade maravilhosa".
Como a Fênix mitológica, Raul Seixas ressurge na televisão, na Rede Globo, no ano de 1983, num programa infantil especial "Plunct-Plact-Zum". Isso depois que sua então companheira, a Kika Seixas pediu encarecidamente a um dos diretores da emissora, o Guto Graça Melo, para que aceitasse o Raul, sob a promessa de que ele seria comportado, que havia aprendido a lição de que não se deve ser contra os poderosos. Raul então compõe uma música cujo refrão deu nome ao programa, na qual, sarcasticamente, fala justamente do sistema que lhe deixou no ostracismo e que lhe fez se humilhar para voltar à vida midiática. "Tem que ser selado, carimbado, avaliado, rotulado, se quiser voar". Relatava que para alcançar o tão almejado sucesso, o artista tem que pagar caro e perder sua identidade. "Pra luz a taxa é alta, pro sol, identidade". Lógico que as mentes brilhantes da Globo perceberam alfinetada da letra, mas com a roupagem cômica e lúdica dada à obra, assim como fazia Monteiro Lobato, os poderosos deixaram passar apostando que a ignorância do povo brasileiro impediria o entendimento do conteúdo como subversivo, principalmente quando a música caiu no gosto da criançada e rendeu mais um disco de ouro ao Raul. No ano de 1987 ele teve a primeira música numa novela. "Cowboy Fora da Lei" foi colocada como tema musical que nada tinha a ver com o conteúdo da letra, pois mais uma vez a Globo apostava na ignorância do povo. Em 1989 após um longo recesso, apoiado no discípulo Marcelo Nova (ex-Camisa de Vênus) o Raul volta aos palcos e à mesma emissora de TV, para lançar o disco "A Panela do Diabo" que lhe rendeu outro disco de ouro, mas não chegou a receber essa homenagem pois morreu dias antes. No início da década de 1990 a Revista Biz, especializada em música, publicou que os discos de Raul Seixas vendiam mais do que os de Zezé di Camargo e Luciano, a mais famosa dupla sertaneja de uma época em que o gênero musical estava em alta.
Raul, mesmo com todos os boicotes, tinha sua legião de fãs incondicionais. Aquelas pessoas mais esclarecidas, capazes de entender as parábolas de suas letras que sempre estavam dando algum "toque" (espécie de dica) tinha que ser um pouco enigmática para desviar da rigidez da censura federal. E mesmo tendo morrido há quase trinta anos, seus fãs continuam fiéis e vão, inclusive, ao cemitério nos dias do seu aniversário, no dia de sua morte e no dia de finados, sendo o túmulo mais visitado do "Jardim da Saudade" em Salvador-BA-BR.
A música Metamorfose Ambulante é a mais emblemática do ponto de vista filosófico. É tema de trabalhos acadêmicos, grupos estudantis, comerciais de televisão, garantindo sentido de liberdade social. Aos poucos o mundo foi seguindo os ensinamentos dessa música, dando a impressão de que ela foi feita para o futuro e que no ano de 1976 as pessoas não estariam ainda preparadas para tamanha ousadia filosófica. Na música S.O.S o Raul clama ao moço do disco voador "Oh seu moço do disco voador, me leve com você, não me deixe aqui, pois eu sei que tem tantas estrelas por aí..." Isso demonstra que Seixas era mesmo de outro planeta e que estaria aqui na terra, exilado. E confirma essa tese nas músicas "Eu nasci há dez mil anos atrás" e "Novo Aeon".
Nesse contexto interestelar, tal qual a música "DDI" as empresas VIVO e SAMSUNG, multinacionais que são e detentoras de altas tecnologias que, há quem diga que têm origem extraterrestre, e assim, com mentalidades capazes de entenderem a grandiosidade das obras de Raul, lhe fizeram a melhor homenagem até hoje. O vídeo abaixo demonstra fielmente toda a capacidade do velho Raul e bem explica porque ele foi tão injustiçado e mal-entendido. O filme retrata um ser que, cansado de estar sozinho na multidão, viaja da sua época (1976) para o futuro, adquire as tecnologias desse tempo (dias atuais), retorna ao tempo das cavernas e presenteia seus antepassados com os objetos da SAMSUNG e da VIVO, com o intuito de elevar o patamar da consciência humana, para que quando ele, Raul, voltar a sua época (1976) encontre pessoas no mesmo nível mental que o seu, capazes de, finalmente, lhe entenderem, na sua mensagem principal, de que se deve ser uma Metamorfose Ambulante.
É bem verdade que para mim, talvez por não pertencer a minha "época", as canções do Maluco Beleza nunca tiveram grande representação. Foi conversando com você que percebi o quanto ele estava a frente de seu tempo, demonstrando isso nas letras de suas musicas e no pensamento um tanto excêntrico. Só um fã como você poderia resumir a vida do Raul Seixas em tão poucas linhas. Parabéns.
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