A LIBERDADE É UMA DROGA
Assim como uma drogaria manipula substâncias consideradas drogas, em
dosagens sistematicamente adequadas, o sistema social busca limitar beneficamente
a liberdade das pessoas para poupá-las de si mesmas. As drogas superdosadas promovem
ultra prazeres viciantes, e a frequência do seu uso inevitavelmente aumenta de
forma gradativa até o colapso. E no uso da liberdade desenfreada, muitas
pessoas se perdem nesse excesso, se arrependem e voltam ao conforto da “escravidão”.
A depender da quantidade, as drogas podem curar ou matar. E a liberdade
nas mesmas circunstâncias pode salvar ou destruir. No habitual as pessoas
trabalham semanalmente de segunda a sexta-feira e descansam aos sábados e
domingos, porque essas cargas horárias foram convencionadas de forma multidisciplinar.
Por exemplo, a composição musical Fim de Semana, do cantor Roberto Carlos,
retrata bem o valor atribuído ao final de semana, após uma jornada de trabalho
dignificante: “Tudo é festa, eu não me importo com nada [...] afinal é meu fim
de semana [...] estava ansioso por chegar esse fim de semana [...] agradeço a
Deus esse dia tão lindo [...] espero outro fim de semana”. Além disso essas
mesmas convenções se embasam no fato indiscutível de que a folga, a festa, a
liberdade, a alegria,devem ser degustadas em pequenos goles para não perderem
sua raridade e, consequentemente, o valor. A Igreja, outrora bem mais do que
hoje, cuida deste princípio, desenvolvendo bem o papel de ajudar a doutrinar e
impor, sabiamente, limites à liberdade, sob a promessa testemunhada de uma vida
melhor.
Nesse prisma, cita-se um ditado
popular que diz: ”Água demais mata a planta!” Se houvesse uma inversão de
períodos nessa relação trabalho-descanso, inexoravelmente se constataria com
facilidade uma prejudicial diminuição da produtividade e das condições de
sobrevivência. Essa má liberdade que é acompanhada da irresponsabilidade,
comparada com as drogas, causa prazeres que se vão tais qual fumaça, causa
grandes euforias que parecem eternas. Mas sua característica ilusória de prazer
faz com que o usuário se vicie rapidamente. E a efemeridade qualitativa de seus
efeitos, promove ao experimentador uma necessidade repetitiva e insaciável.
Dessa forma, esses prazeres deixam de ser preciosos, justamente por se tornarem
banais e comuns, e o protagonista necessita de drogas mais potentes, de mais
liberdade, de mais “poder fazer o que quiser”.Este esforço passa a ocupar
todas as forças do ator, seus objetivos progressistas e desenvolvedores ficam
para trás, assim como as condicionantes de sobrevivência.
“Eu tive que perder a minha
família, para perceber o benefício que ela me proporcionava”. Ainda nesse contexto,
esse trecho da música Diamante de Mendigo, Raul Seixas ilustra bem o
arrependimento de uma pessoa que deixou a liberdade limitada, dosada e segura
de uma família, em troca de uma maliciosa liberdade total. Por exemplo, um empregado
que resolve ser patrão, mas se decepciona com a quantidade de responsabilidades
que tem que assumir, desiste do empreendedorismo e volta para a comodidade de
ter seu salário certo ao final de cada mês. Além disso, um procedimento médico-pediatra
eficaz que faz um recém-nascido parar de chorar imediatamente, é enrolá-lo em
tecido, em forma de charuto. Isto limita seus movimentos soltos, sua liberdade
incômoda, e faz com que o bebê reexperimente o bem-estar uterino. Também
é publicamente sabido que muitas pessoas preferem não fazer um exame de HIV,
simplesmente por acharem que perderão o sossego em caso de um resultado
positivo. É o “Me engana que eu gosto”. É a liberdade se tornando uma droga.
Nesse contexto, a liberdade
total é uma grande ilusão, é destrutiva, pois se configura uma “overdose” de livre-arbítrio.
Toda liberdade deve ser condicionada, dosada na medida certa, para justamente
manter-se valorizada e cobiçada como toda raridade. A sabedoria popular já
afirma sem a existência de qualquer contestação, que todo exagero é prejudicial.
Além disso, a homeopatia característica às dosagens é realmente imprescindível,
visto que em porções erradas e desmedidas, verificam-se efeitos contrários aos
desejados. Isto é comum à liberdade e às drogas.
Luis Borsan


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