Minha terra não tem mais palmeiras, onde, também, não cantava o sabiá.

     

Poema - Canção do Exílio
Gonçalves Dias, em 1843


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras;
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


PONTO DE VISTA

Apesar da estonteante grandiosidade poética do estupendo artista, que nos faz inflar a alma de um êxtase literário inominável, peço permissão para pontuar uma crítica.
Consultando alguns nativos da microrregião do Baixo-Sul da Bahia, Brasil, soube que o sabiá da palmeira NÃO canta, somente pia. E que o que realmente canta seu lindo canto de lamento é o sabiá da laranjeira.
Mas confesso que inicialmente duvidei do senso-comum desses práticos rurícolas. Contudo, fui artisticamente abatido e convencido pela melodia altamente filosófica do erudito cantor Belchior, que ratifica, em sua belíssima composição Retórica Sentimental, a tese dos camponeses epistemologicamente rudes.

"E por falar no sabiá
o poeta Gonçalves Dias ai que sabia.
Sabe lá se não queria
um Europa, bananeira?
Diga lá, tristes trópicos:
sabiá laranjeira"

Belchior, literariamente, ainda, humilha aludindo ao texto lírico de Affonso Arinos de Mello Franco, "Buriti Perdido", gravado em mármore na Praça do Buriti, em Brasília-DF.

               "...E em matéria de palmeira
               ainda tem o buriti perdido..."

     Belchior revisita a história e traz à baila o fato de que durante a construção de Brasília, a palmeira do buriti, quase dizimada, foi escolhida como símbolo da cidade. E em 1959, inspirado no poema "Um Buriti Perdido", foi plantada uma muda da planta na frente da futura sede do Governo do Distrito Federal e a muda morreu. Replantada dez anos depois, foi tombada, finalmente, em 1985. (Mas em Minas Gerais, em janeiro de 2018, o governador Fernando Pimentel - PT sancionou uma lei que autoriza a derrubada de buritis solitários, ou seja, "buritis perdidos").



Portanto, uma vez que o poema é um claro lamento de um exilado, caracteristicamente semelhante ao canto do sabiá da laranjeira, e sendo o Belchior um lamentador referenciado por Raul Seixas, na música Eu Também Vou Reclamar, posso concluir que Belchior, com seu olhar, poética e filosoficamente aguçado, já previa que quando o desterrado voltasse ao Brasil, perguntaria atônito pelas palmeiras perdidas e constataria, ao menos, que o sabiá canoro mudara para a laranjeira.


LuisBorsan

Fontes: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.phpoption=com_content&view=article&id=483&Itemid=181

http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.phpoption=com_content&view=article&id=483&Itemid=181


https://unainet.com.br/pimentel-afonso-arinos-eo-buriti-perdido/







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