OS OUTROS



Passei a noite ali, em meio a todas as angústias imagináveis. Às vezes cochilava e logo me assustava com a iminente invasão daquelas pessoas, e com meus próprios fantasmas...


     Quando eu nasci e abri os olhos pela primeira vez, contemplei a maravilhosa dádiva de se viver. Vi minha mãe, meu pai e meus irmãos. Estávamos sempre unidos, juntinhos em nossa casa. Meus pais às vezes saíam para promover a minha alimentação e dos meus irmãos, mas não sem antes nos encher de conselhos, advertências e alertas sobre os perigos da vida. Eles diziam que sempre encontraríamos pessoas que nos quisessem fazer mal. E aos poucos eu mesmo pude constatar que eles estavam certos. De vez em quando as tais pessoas más apareciam, e nós ficávamos todos bem quietos dentro de casa. E até mesmo meus pais que já eram muito espertos, só saíam de casa à noite, quando aquelas pessoas nojentas iam embora.

     Eu sempre quis conhecer o mundo e grande foi a minha alegria, quando meus pais me deixaram sair de casa sozinho pela primeira vez, ainda que tenham me chateado com um monte de conselhos. Os mesmos já incansavelmente repetidos. Eu nem precisei prestar muita atenção, pois já os conhecia por osmose. Andei muito naquela noite e não vi nenhuma pessoa má, ninguém me quis fazer mal. Bem eu sabia que meus pais exageravam com aqueles inúmeros conselhos. conheci coisas novas e fiquei tão deslumbrado que perdi a hora de voltar para casa. Já no caminho de volta, uma coisa me chamou muito a atenção. Era muito chamativo. Vi que ali tinha uma comida muito cheirosa e convidativa. Pensei em dar uma passadinha e ainda levar um pouco para casa. Eu surpreenderia a todos. Decidi entrar. Em fração de segundos notei que tudo estava à meia-luz e eu não conseguia ver quem estava ali. Enquanto me esforçava no reconhecimento do local, a porta bateu, fechou-se às minhas costas, causando grande susto e me levando novamente à consciência e à prudência. Lembrei dos conselhos dos meus pais para não me aproximar de estranhos e para não entrar em locais desconhecidos. Dei meia volta e tentei inutilmente abrir a porta. Fui tomado por incomensurável desespero. Pela primeira vez estava em perigo e muito longe da segurança dos meus pais. Eles sequer sabiam onde eu estava, pois eu os desobedeci e saí do caminho planejado. Fiquei ali parado, sozinho, cercado por fantasmas assombrosos. Será que as tais pessoas más apareceriam para me fazerem mal? Será que eu veria minha família novamente? Será que meus pais me perdoariam? O arrependimento já me matava.

     Passei a noite ali, em meio a todas as angústias imagináveis. Às vezes cochilava e logo me assustava com meus próprios medos. Finalmente amanheceu. O medo aumentava. Será que as tais pessoas más vão aparecer? O que será que vão fazer comigo? De repente ouvi barulhos que sugeriam pessoas caminhando em minha direção, mas o ângulo não me permitia vê-las. Que terror! Eu nunca havia experimentado tamanho desespero. Esperava o pior. As tais pessoas começaram a tomar forma em meus olhos inebriados de temor. Pareciam gigantes! O mal estava estampado em seus olhares. Demonstravam experimentar extasiante prazer com a minha situação. Riam, gargalhavam, gritavam como se estivessem comemorando uma vitória. Passaram a me xingar e acusar de tê-los furtado e danificado suas coisas. Mas eu era inocente. Passei a chorar copiosamente e isso parecia lhes dar mais prazer. Diziam "olha ele está chiando!" Aquelas pessoas passaram a discutir entre si sobre o meu destino. Um que tinha cabelos brancos falava em me matar afogado, depois propôs me matar queimado. Colocaria álcool sobre mim e atearia fogo. Uma mulher apareceu e disse que o tal homem deveria me matar logo e deixar de especulações sobre a forma de minha morte. Ela dizia que me queria morto de qualquer jeito. Vi minhas forças esvaindo-se em meu desespero. Pensei novamente em minha família. Sabia que nunca mais a veria. Não ouviria mais os, agora não tão chatos, conselhos dos meus pais sobre os perigos da vida.

     Já não tinha quase fôlego vivente, quando se aproximou uma pessoa menor que parecia ser filha dos primeiros. Essa menor tinha um semblante diferente. Transmitia amor e paz. Ela parecia se compadecer da minha situação, do meu sofrimento, e demonstrava empatia. Como num passe de mágica, os adultos passaram a ouvir a menina. Ela disse que eu deveria ser solto para voltar para minha família, pois meus pais deveriam estar sofrendo com a minha ausência. Eu demorei muito para aceitar, assimilar que aquilo poderia ser verdade, pois em todas as histórias que meus pais contavam, aquelas pessoas más nunca tinham compaixão.

     De repente, todo o galpão onde eu estava passou a ser içado e foi envolto por um grande cobertor. Às cegas foi transportado para muito longe. Sentia que estava sobre algum tipo de transporte. Alguma coisa muito grande que balançava suavemente, produzia uma espécie de ronco quando recebia propulsão para frente e que esse ronco diminuía à medida em que desacelerava. E parecia andar sobre rodas.

     O grande cobertor foi retirado. Nesse momento eu vi o sol pela primeira vez. Olhando para cima, reconheci o céu e as nuvens pelas características narradas pelos meus pais em suas histórias. Eu não saía muito de casa e quando o fiz foi à noite, mas ainda assim, olhando para cima via somente um telhado e achava que aquele era o limite do meu mundo. Até meus pais saíam mais à noite, justamente quando aquelas pessoas invasoras não estavam. Agora, nesse lugar para onde fui levado, eu vi nesse momento que ali estavam a aquela menina e o tal homem de cabelos brancos que, ao que tudo indicava, era o pai dela. Um que queria me matar e uma que queria me salvar. Afinal eu não entendia bem por que pensavam diferente entre si. Por um momento, criei uma conclusão doida na minha cabeça. Pensei que se eram pai e filha, um mais velho e uma mais jovem, isso poderia significar que aquela raça estaria evoluindo. E certamente meus pais só conheciam aquelas pessoas mais velhas e por isso tinham aquela terrível ideia de que todos os seres humanos eram ruins. Quem dera meus pais pudessem conhecer aquela menina. Certamente mudariam de opinião sobre os humanos.

     Agora a tal menina ordenou que o homem abrisse a porta do local que me aprisionava. Não sei por que ela se referia a mim por um nome no diminutivo e que não era o meu, apesar de fazê-lo com um meigo tom de voz. Mas isso não importava diante do seu incrível e esperançoso gesto de amor e compaixão. A porta da minha prisão, milagrosamente, foi aberta. Eu demorei um pouco para acreditar que aquilo realmente estivesse acontecendo. Saí correndo só pensando em encontrar minha família, louco para lhes contar que poderiam ter esperança na humanidade, pois nem todos os humanos eram maus. E na minha corrida, ainda percebi a menina pulando de alegria, repetindo “Adeus ratinho”. Parei por um momento para olhar para trás e ainda ouvi a menina dizer para o pai, que estava visivelmente pensativo e emocionado: “Vamos pai. Pega a ratoeira e coloca no carro. Vamos para casa”.

Luís Borsan


SE
     VOCÊ
              AINDA
                           NÃO
                                        SABE
                                                     QUEM
                                                                     SOU
                                                                                EU,
                                                                                          OLHE 
                                                                                                       A 
                                                                                                             MINHA 
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